02 julho 2013

O demônio do subúrbio



Rio de Janeiro, Engenho de Dentro, 1999.


“Nunca passe pelo Beco do Capeta às sextas, depois da meia-noite”, diziam muito sérios os meninos aos novatos no bairro. Falado assim, fora de algum contexto, isso poderia soar um bocado ameaçador, mas “Capeta” fora só um garoto de onze anos que muito propriamente ganhou o apelido ao jogar uma bombinha de São João – ou um cabeção de nego, a lenda variava – acesa no cabelo da mãe, vingando-se por ela ter escondido o seu Telejogo. Não me recordo do nome real do guri, devia ter nome de velho, em homenagem ao avô, feito Adamastor, Felisberto, Lourival. E nem o Capeta aceitava que o chamassem de qualquer outra coisa senão daquele apelido que lhe caía como luva. No entanto, sei que ele era miúdo para a idade; que tinha olhos saltados, cabeleira cacheada e era magrelo, amarelo e feio como deve ser o próprio demo. Lembro-me também que ninguém ganhava dele na carniça, no jogo de botão, no bate-begue, no bafo-bafo de figurinhas, ou fazia cerol melhor ou mais cortante para as pipas.

“Beco” também não seria uma denominação adequada; na verdade o lugar era uma vila de casas sem saída, na rua onde morávamos, destas antigas dos subúrbios do Rio, cheia de aposentados, com enorme portão de ferro na entrada, ruazinha de paralelepípedos no meio e habitações estreitas de “altos-e-baixos” geminadas, cheias de antúrios, samambaias e comigo-ninguém-pode em vasos nas calçadas que faziam o papel de varandas.

Eu era só um filhote então, você sabe, o tempo é cruel com os cães. “A vela que brilha duas vezes mais forte, brilha pela metade”. Pois é, depois de meros dez anos já somos quase anciões e, com dezenove, feito tenho agora, meio cego, surdo e desdentado, nem se fala... Na época, com apenas sete meses de idade, já era enorme; uma descarrilhada e peluda locomotiva de quatro patas, meio vira-latas, meio Pastor Alemão. Eu era o Bandit, não o medroso cãozinho do Jonny Quest, mas um que arrastava Zezinho e Carlinhos pela correia, driblando os ônibus 606 no meio da rua, caçando gatos, participando das brincadeiras de “polícia e ladrão” e sendo o gandula oficial nos jogos de futebol, sempre trazendo de volta a bola de meia ao “campo” - que era só uma calçada com chinelinhos delimitando as traves do gol.

Minha nossa! Eu me perdi, não? As memórias agora vêm feito uma torrente caudalosa, parecem ter vontade própria. Eu perco fácil o fio... Bem, por que nunca passar pelo beco depois da meia-noite? Hum, isso pede por mais história.

Mudara-se recentemente para o novíssimo e único edifício da rua um garoto comprido, de olhos cor de inverno, de cabelos louros cortados no melhor estilo “reco”; o André “Galego”. Penso que os pais davam mais liberdade às crianças nesse tempo, acho que eram menos preconceituosos também. Pois o pai do Galego tinha um Corcel II do ano, era gerente do Banco Nacional, porém logo o moleque vivia tão encardido e machucado como qualquer dos meninos menos abastados da vizinhança. De fato, o Capeta gostou e desgostou dele tão logo o conheceu; o louro era obviamente outro alfa, outro líder nato de matilha.

Como esperado, em pouco mais de um mês o novo menino já mostrava sua capacidade de liderança ao conduzir a invasão de um cinema falido, de cuja laje todos os guris passaram a soltar pipas, a fumar escondido Minister ou Continental, a competir para ver quem cuspia ou mijava mais longe. Com facilidade o Galego ganhava quase todas as bolas de gude deles, todas as figurinhas, inclusive a rara “baleia” do álbum da Disney. Saltava mais longe e nunca foi “carniça”. E pecado dos pecados: em cinco disputas diferentes cortou e arrematou quatro pipas do Capeta, o nosso campeão dos ares.

Aproximava-se o carnaval e os meninos costumavam sair todos de Bate-Bola ou Clóvis, feito diziam os primos deles que viviam em São Gonçalo, terra das cafifas. A vizinha Dona Marilda “Portuguesa” desenhou e pintou unicórnios para as capas de cetim negras e prateadas, e todas as casas da vizinhança cheiravam tal qual mictório público, por causa das “armas”; das bexigas de boi infladas que eram curtidas nas áreas de serviço, sob o Sol forte daquele Fevereiro quente e seco. Zezinho de vez em quando urinava sobre a sua para deixá-la ainda mais fedida, eu às vezes também, sem que ele soubesse. Na sua, Carlinhos passava água com pimenta do reino e sal, para que ardesse na pele ao se bater em alguém – não que ele tivesse a intenção de machucar de verdade, mas porque era coisa que todos os outros meninos faziam.

No sábado de carnaval, ao sair às ruas, naturalmente o Galego já liderava o grupo de bate-bolas e eu só ia seguindo atrás, com uma capa de Batman atada à coleira e uma máscara preta que não me deixava ver direito. Latia e me assustava depois de cada batida das bexigas na calçada e devido aos silvos estridentes dos apitos que os meninos tinham nas bocas. Era divertido ver as crianças pequenas chorando de medo e o pastor da Igreja Batista correr atrás da gente com um pedaço de pau na mão.

Capeta seguia o grupo meio atrasado, obviamente entristecido por agora apenas ser mais um no bando.

Passávamos pela passarela por sobre a estação do trem suburbano para provocar uns garotos vestidos de carrasco do outro lado do bairro, na Rua Goiás. Repentinamente, vimos uma pipa, linda, linda, com rabiola longa, de papel de seda azul e hastes artisticamente vergadas, que caía do céu. Os meninos logo se esqueceram de que era carnaval e nas ruas distantes, outros garotos, fantasiados ou não, com cabos de vassoura ou bambus, correram em nossa direção.

Para a decepção de todos, o “pião” passara por nossas cabeças e fora levado pelo vento de encontro aos cabos de energia do trem. Seria questão de minutos até que os rapazes mais velhos chegassem com varas compridas. Foi então que o Galego disse algo que ele se arrependeria pelo resto de seus dias.

— Tá voada, tá voada! Essa é tua, Capeta! Vai lá que a gente te dá cobertura! Ou vai dizer que tu vai medrar? Que não tem coragem?

“Coragem?”, o louro provocava alguém que levara um camundongo morto para a sala de aula e colocara na cadeira da tímida professora de Português, que finalmente estafou, e fora substituída pela Mara “Megera”, que só no primeiro dia de aula expulsou três da sala. Alguém que costumava tomar banho de piscina e fazer xixi na caixa d’água da casa do temível Seu Coimbra “da bengala”, que fizera um Judas ridículo do mesmo Seu Coimbra num Sábado de Aleluia e pendurara num poste em frente à casa do homem, ficando fazendo caretas e rindo da expressão indignada do pobre quando o vira sair.

Para piorar, os meninos, todos eles, perceberam de longe a provocação, o jogo de disputa pela liderança que ali se formava, feito quando dois cães cheiram os traseiros antes de decidirem se vão morder ou abanar a cauda para um estranho. Começaram com “ihs” e “ahs”, a dizerem bobagens como “chamou o pai de careca, a mãe de cabeluda”. Ainda que indiretamente, citar a mãe desquitada e mal falada do Capeta era o suficiente para tirá-lo do sério.

Por trás da máscara de caveira com cabelo laranja, ele devia estar apavorado, mas não demonstrava. Talvez somente eu, consegui cheirar o medo nele.

            — Vai tomar no cu, Galego! Tá pensando o quê? Eu sou macho! – Respondeu, levantou a máscara e escarrou no chão.

            Subiu e sentou na lateral da passarela com a agilidade e graça dum macaco, chegou a ameaçar ficar de pé sobre os kichutes para demonstrar que não tinha medo. Com a mão direita segurou-se com firmeza ao corrimão da passarela, flexionou as pernas e inclinou o corpo em direção ao vazio, esticando o braço esquerdo e usando a haste de madeira da bexiga para alcançar a pipa.

            O objeto passava a dois ou três centímetros do cabresto da voada, sem lograr alcançá-lo e ele inclinou ainda mais o corpo. Receosos, Carlinhos e Zezinho já aconselhavam que ele desistisse.

            Daí, ele se desequilibrou e, no reflexo de não cair, segurou num cabo de alta tensão. Um estrondo feito um tiro se ouviu e percebi um cheiro horrível de eletricidade no ar. As mangas da roupa de cetim em preto e branco e o cabelo laranja se inflamaram, e o Capeta despencou em chamas feito um anjo caído, até beijar os trilhos que corriam abaixo.

            Felizmente algumas pessoas tudo viram e correram à estação, para evitar que ele ainda fosse atropelado por um trem. Dias depois, escutando os meninos, eu soube que ele resistiu por uma semana no hospital, com setenta por cento do corpo queimado e oito fraturas.

            A mãe, Dona Josefa, não suportou bem a perda do filho único, mesmo uma peste feito o Capeta, que cabulava aula e repetia a quinta série pela segunda vez. Trancou-se em casa e, alguns meses depois, morreu do coração enquanto dormia. Na vila, a casa desde então ficou fechada, esperando pelo provável desenrolar de algum inventário financiado talvez por um parente distante.

            Meus donos não perceberam, mas eu passei a ver frequentemente o falecido sentado à porta de sua casa vazia, ainda fantasiado e com os cotovelos apoiados nos joelhos, como se chorasse a morte da mãe. Um dia, ao me notar latindo para ele, acenou e riu, sinistramente, me fazendo correr ganindo para casa com o pelo todo arrepiado.

            Eu não sei o que se passa depois que alguém morre, talvez por um tempo não tenham noção de seu novo estado e vaguem perdidos, pode ser que tentem comunicar-se com os vivos, que tentem retomar às suas rotinas. O fato é que depois da última vez que vi o fantasma do menino, ele desapareceu, mas a sensação de frio, de estranheza, essa permaneceu por lá, feito uma aura escura, uma mácula de sangue que, ainda que bem esfregada, nunca sairia de verdade.

***

            Quase um ano se passou lentamente, como o tempo parece que sempre se arrasta quando somos jovens, traindo-nos e acelerando mais tarde, quando nossa vida na Terra está por acabar. Eu cresci e me interessei pelas lindas cadelas no bairro, correndo em bando atrás de todas em cada cio, voltando sempre magro, com carrapatos ou sarna. Imagino que tenho algumas dezenas de filhotes espalhados por aí. Já os meninos, eles se esqueceram do Capeta, somente às vezes comentavam sobre a valentia sem noção do falecido, e sobre como eu me assustava e latia quando passava frente à casa da família dele, que continuava trancada e inabitada.

            Daí alguém começou com uma história, um boato ou lenda urbana, que o beco fosse assombrado, que ninguém teria coragem de passar a noite por lá, em especial na próxima sexta-feira treze de Fevereiro de 1981, próximo no aniversário da morte do menino.

— Eu passo a noite lá, suas mulherzinhas. Chego meia-noite e passo fantasiado de bate-bola, só pra mostrar que já tenho pelo no saco! Ora, o Capeta morreu porque foi burro, foi só um acidente! – Falou o Galego ao restante do bando, quando começaram a comentar sobre o beco assombrado.

Carlinhos e Zezinho então sugeriram que o louro me levasse junto. Porque eu poderia ver o fantasma e avisar quando ele estivesse lá. De longe, do portão da vila, o bando observaria a prova de valentia do nosso líder.

Como combinado, André Galego deu um jeito de sair à noite – disse aos pais que ia dormir na casa de algum amigo, coisa que não precisou confirmar porque quase ninguém tinha telefone à época -, e levou a fantasia de bate-bola escondida na mochila.

Uma névoa fria e espessa, estranha naquele Fevereiro tão seco, começou a baixar depois das onze da noite. Próximo da meia-noite, alguns gatos cruzando escandalosamente nos telhados, fazendo tanto barulho quanto demônios torturados, fez parte dos meninos desistir do desafio e buscar o calor de suas camas. Faltou luz de repente, mas Carlinhos retornou à nossa casa e voltou com uma vela acesa e entregou ao louro, rapidamente.

Galego continuou firme, sentado à porta da casa do Capeta, vestido com a ridícula roupa de cetim bicolor, sozinho feito um palhaço sem picadeiro e plateia. Para os meninos aglomerados junto do portão da vila, ele era um herói; alguém mais corajoso que o Capitão Aza ou o Ultraseven. Mas eu, sentindo todos os meus ossos gelados por antecipar algo ruim, eu farejava o medo do guri, percebia como ele tremia e fazia um esforço sobre-humano para que ninguém notasse.

O relógio-carrilhão de alguma casa da vila começou a soar a primeira de doze badaladas. Meu pelo do lombo eriçou, senti frio e vi o Capeta atravessando o muro que fechava a ruela central da vila. Desta vez ele tinha o rosto ferido, como se fora de plástico e houvesse derretido parcialmente. Os olhos brilhavam metalicamente e a cabeleira cacheada estava falhada em várias partes, deixando exposto o couro cabeludo em carne viva. A fantasia de cetim meio carbonizada estava grudada nos braços, peito e pernas.

Comecei a latir e uivar, desesperadamente. Galego levantou-se do degrau junto à porta da casa e urinou-se, sem dizer uma palavra.

            Aparentemente os meninos junto do portão da vila não viram nada, só ficaram sobressaltados devido à barulheira que eu fazia.

            Galego parecia não poder se mexer, tremia e a vela em suas mãos vacilantes criava sombras fantasmagóricas e bruxuleantes.

            — A hora da vingança é a hora mais doce, Galego! Olha, onde estou agora não é nem tão ruim assim, logo, logo poderei seguir pro descanso eterno, feito o Padre Montenegro costumava dizer nas missas, lembra? Mas você, você meio que armou pra mim, né? E eu caí que nem um patinho! Morri porque fui burro, feito você comentou. Burro, eu? Só aqui, de todos os lugares do mundo e somente hoje eu poderia aparecer pra você! Quem é o burro então, hã?! Veja, o que é teu tá guardado, eu já vi o seu futuro. Tu vai queimar também, mas não por uns segundos! Vai queimar toda a eternidade! Ha-ha-ha!

            O louro continuava mudo, tremendo de forma convulsiva. Os olhos viravam nas órbitas, espuma começava a se formar nos cantos de seus lábios muito pálidos.

            — Mas o mais divertido disso tudo, é que eu não posso te fazer mal diretamente, ou iria acabar no mesmo buraco imundo onde você vai morar um dia, ha-ha-ha. Porém, quem precisa? – Ele completou, enfiando uma das mãos sobre a pele solta e elástica que cobria o seu rosto, esticando-a, como se fosse uma máscara de látex. — BU! – Ele gritou.

            O louro ganiu e saiu correndo, deixando, no entanto, a vela cair sobre a manga da fantasia. O cetim rapidamente se inflamou e, quando ele alcançou o portão da vila, mais parecia o Tocha Humana dos quadrinhos do Quarteto Fantástico, embora não houvesse dito “Inflame!”.

            Felizmente um dos meninos encontrou um regador cheio no meio das plantas que os velhos cultivavam nas calçadas e conseguiu apagar as chamas. A gritaria acordou alguns vizinhos e eles correram para telefonar para um hospital do orelhão mais próximo.

            — Será assim, igualzinho, Galego. Mas para sempre, sempre, sempre... – Foram as últimas palavras do Capeta, antes de sumir, aliás, tendo antes piscado amistosamente um de seus olhos cor de metal derretido para mim.

            André Galego sobreviveu às queimaduras de segundo e terceiro grau, apesar de ter ficado coberto de cicatrizes. Não muito depois do incidente, a família mudou-se do Engenho de Dentro para algum destino desconhecido pelos vizinhos. Diziam que ele só conseguia dormir sob o efeito de fortes remédios. Que ficava repetindo: "para sempre” e olhando para o vazio.

***

Mesmo hoje, alquebrado pelo acúmulo dos anos, mais mancando do que propriamente caminhando, ainda sinto frio quando passo defronte a vila, pelo nosso lugar assombrado, pelo Beco do Capeta. Sei que não fui um cão perfeito, mas minhas poucas e pequenas maldades – bifes roubados de cima da pia, um sofá rasgado, um enorme buraco no jardim cheio de flores recém-plantadas, um gato que eu quase matei certa vez - devem me assegurar algum lugar bom no além. Talvez então, quando eu alcançar o outro lado, Adamastor, Felisberto, Lourival, ou seja lá como ele realmente se chamou... Pode ser que então ele me explique direito como funciona a morte e o que vem depois dela, sobre como os mortos conseguem às vezes interagir com os vivos.

Quem sabe, depois, já redimidos de nossas faltas, fantasiados outra vez, portando máscaras, apitos e bexigas de boi fedorentas, não voltaremos todos a brincar, desta vez nos Campos Elísios?

Autor: Rubem Cabral
 
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